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terça-feira, 21 de março de 2017

Allan Pettersson - Sinfonia n.º 7


 
 
 
O Compositor
 
 
Compositor e violetista sueco, Allan Pettersson (1911-1980) nasceu no seio de uma família pobre e hostil à sua precoce ambição musical. Apesar das contrariedades estudou violino, violeta e composição, tendo sido aluno, em Paris (através de uma bolsa), dos compositores Honegger e Milhaud, entre outros. Foi violetista na Orquestra Filarmónica de Estocolmo durante 10 anos, mas pouco depois, numa altura em que se dedicava quase exclusivamente à composição, deixou de poder tocar devido a doença (artrite reumatóide). A última década da sua vida foi passada entre casa e o hospital.
 
 
 
Sinfonia n.º 7
 
 
Estreada em 13 de Outubro de 1968, e composta num único movimento, é uma obra (até pela sua duração) notavelmente coesa, intensamente bela, profundamente trágica. Foi com a estreia da sinfonia n.º 7 que Allan Pettersson obteve reconhecimento como compositor no seu país natal (Suécia).
 
 
 
 



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"Jeanne, La Pucelle" ("Joana D`arc, a Donzela") - Jacques Rivette (1994)




«No dia 30 de Maio de 1431, na praça do Vieux-Marché, em Ruão, Joana D`arc é queimada viva. O tribunal, convocado pelos ingleses e presidido por Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, acaba de a declarar herética e relapsa.»


(retirado de  Os grandes julgamentos da História - O processo de Joana D`arc)




Esta grandiosa obra de Rivette (dividida em duas partes) centra-se no período anterior ao julgamento (nos 2 anos antes, desde Vaucouleurs, onde, pode-se dizer, a epopeia começa) e é não só uma poderosa evocação biográfica, mas também um sóbrio retrato da vida (ou parte dela) nos fins da idade média.





Filme completo:

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Green Carnation - "In the realm of the midnight sun" e "My dark reflections of life and death" 


"In the realm of the midnight sun" e "My dark reflections of life and death" são duas composições da banda norueguesa Green Carnation. Fazem parte do álbum "Journey to the end of the night" (2000). Ambas as composições contam com a participação da vocalista Vibeke Stene. "In the realm of the midnight sun" conta ainda com a participação do vocalista  Atle Dørum.









Em vão minha mente tentou agarrar o leme
A tempestade implacável não o permitia
Minh`alma baloiçava como uma barcaça em segunda mão
Sobre um mar monstruoso Sem mastros

As margens onde parariam?





CHARLES BAUDELAIRE,  As Flores Do Mal (tradução de Maria Grabriela Llansol)







terça-feira, 27 de dezembro de 2016

"Stellet Licht" ("Luz Silenciosa") - Carlos Reygadas (2007)






Há uma angústia na natureza
e no coração do homem
que não morre
e na alvorada de cada dia
o drama imemorial recomeça.



DESMOND O`GRADY, As Novas Cartas


 



Trailer:

terça-feira, 22 de novembro de 2016

"Fado Canibal" - Timóteo Azevedo (2012)






Uma incursão à vida e obra de uma das figuras mais marcantes da música portuguesa: Adolfo Luxúria Canibal.





Documentário completo:

https://www.youtube.com/watch?v=FAFM3L6HQfM&t=2s



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Eduardo Valente Da Fonseca -  «Os criptogâmicos» (Paisagem Editora, 1973)




Criptogamia, s. f. Qualidade das plantas que não dão flores



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Os aquários gigantes



A cidade ao domingo ficava petrificada. As pessoas vinham inundar os cafés de sono. Ficavam horas com os cotovelos a furar as mesas. Olhavam para o exterior com olhos grandes e parados, como peixes imóveis num aquário gigante. Odiavam, mas o ódio não se via. Viviam como se um grande castigo os impedisse de levantar o braço para apontar uma arma à cabeça ou levar um tubo de comprimidos à boca. Não sonhavam. Apodreciam sem rumor como os detritos que vivem nas zonas sombrias das grandes florestas. Obedeciam freneticamente ao bolor. Amavam a traça e o pó. Viviam fantasmagoricamente de obediência. Eram todos tão desgraçados que já nem sequer despertavam piedade.




EDUARDO VALENTE DA FONSECA, Os criptogâmicos

sábado, 17 de setembro de 2016

Paatos - "In that room", "Absinth minded" e "Téa"


"In that room", "Absinth minded" e "Téa" são três composições da banda sueca Paatos. Pertencem aos álbuns «Breathing» (2011), «Kallocain» (2004) e «Timeloss» (2002), respectivamente.






Alguém percorre
o mundo
ciente que o invisível
é a resposta
Alguém chora



                                             CARLOS PORTO, Poesia Cega






terça-feira, 2 de agosto de 2016

"The Woman" ("A Mulher") - Lucky Mckee (2011)






Drama, com um lado fantástico-terrífico, de uma família subjugada por um pai dominador que impinge à mesma, de forma cruel, a guarda de uma estranha mulher por ele raptada. Um filme onde a crueldade, a solidão, a manipulação, a violência e o medo estão fortemente presentes.




Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=Vn-UI33gHYU

terça-feira, 5 de julho de 2016

Dornenreich - "In Luft Geritzt" (2008)




1. Drang  (03:43)
2. Unruhe  (04:47)
3. Jagd  (03:17)
4. Freitanz  (02:59)
5. Sehnlauf  (05:30)
6. Flügel In Fels  (06:15)
7. Meer  (04:18)
8. Aufbruch  (04:52)
9. Dem Wind Geboren  (04:31)
10. Zauberzeichen  (03:57)




"O silêncio, o que é o silêncio? Perguntei ao mestre. – Uma floresta cheia de ruído."


CASIMIRO DE BRITO, Onde se acumula o pó?






terça-feira, 14 de junho de 2016

Funeral - "In Fields of Pestilent Grief" (2001)





1. Yield to Me (7:07)
2. Truly a Suffering (4:33)
3. The Repentant (6:41)
4. The Stings I Carry (5:40)
5. When Light Will Dawn (8:34)
6. In Fields of Pestilent Grief (1:45)
7. Facing Failure (6:13)
8. What Could Have Been (3:42)
9. Vile are the Pains (5:49)
10. Epilogue (4:29)




"Este horror de acordar – este era o saber; e exalava um sopro que parecia gelar as próprias lágrimas que lhe marejavam os olhos. Mesmo assim, tentou fitá-lo por entre as lágrimas, retê-lo, segurá-lo à sua frente para poder sentir a dor. Ao menos isso, embora atrasado e amargo, trazia algo do sabor da vida. Mas a amargura provocou-lhe uma náusea súbita; e foi como se visse horrivelmente na realidade, na crueldade da sua imagem o que fora destinado e cumprido. Viu a Selva da sua vida e viu a Fera; e percebeu, talvez pelo movimento do ar, que se erguia vasta e horrenda formando o salto para terminar com ele. Escureceram-lhe os olhos – estava próxima; e naquela alucinação voltou-se instintivamente para lhe fugir e atirou-se para cima da campa de cara para a terra."


HENRY JAMES, A Fera na Selva (tradução de Maria Teresa Guerreiro)







terça-feira, 24 de maio de 2016

"Gigante" - Adrián Biniez (2009)





A tentativa de aproximação a alguém de que se gosta pode ser uma luta épica. Filme trágico-cómico do realizador argentino Adrián Biniez.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

"Gypo" - Jan Dunn (2005)





"Devemos ir buscar a coragem ao nosso próprio desespero."

                                                                LÚCIO SÉNECA




Um filme à luz do «Dogma 95» ("câmara na mão", ausência de banda sonora, ...)





Trailer


quinta-feira, 31 de março de 2016

Communic - "Raven`s Cry"

"Raven`s cry" é uma composição da banda norueguesa Communic. Integra o álbum "Payment of Existence" (2008)




 
 
 
 
 
"Um terror confuso, imenso, esmagador, pesava na alma de Duroy, o terror desse nada ilimitado, inevitável, que destruía, indefinidamente, todas as existências tão rápidas e tão miseráveis. Curvava a fronte sob essa ameaça. Pensava nas moscas que vivem algumas horas, nos insectos que vivem alguns dias, nos homens que vivem alguns anos, nos mundos que vivem alguns séculos. Que diferença, no entanto, entre uns e outros? Algumas auroras a mais, eis tudo."
 
 
 
GUY DE MAUPASSANT, Bel-Ami (tradução de Jaime Brasil)
 
 
 
 
 

sábado, 12 de março de 2016

"Effie Gray" - Richard Laxton (2014)




Fascinante drama freudiano na Inglaterra do século XIX. Exemplarmente realizado e interpretado.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

João Coutinho e Castro - "Ecologia desesperada"









Um grito à destruição cega da vida. Retirado do livro «O tempo os Lugares», de 1987.



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ECOLOGIA DESESPERADA



morre a vida
os peixes morrem na água
a água morre primeiro
morrem as aves que bebem
a água
morte corrente

a cada um
a radioactividade
o cancro
a que é obrigado
nesta guerra
de extermínio
e rapina

os omos lavam mais branco
mas é preciso gritar
quanto custa
e quando lavam
o que levam


                                         
berlim, setembro de 1982




JOÃO COUTINHO E CASTRO, O tempo os Lugares

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

"A Cidade dos Mortos" - Sérgio Tréfaut (2011)





Visita de contornos surreais a um cemitério onde os vivos habitam lado a lado com os mortos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Terry Winter Owens - "Exposed on the Cliffs of the Heart" (2000)




1. Exposed on the cliffs of the heart (9:33)
2. Ariadne`s Crown (10:49)
3. Tocata (10:55)
4. Rendezvouz with Hyakutake (10:37)
5. The Rapture of Beta Lyrae (11:32)




A compositora

Terry Winter Owens (1941-2007) é uma compositora norte americana nascida em Nova Iorque. Começou a compor desde muito nova, influenciada por compositores como Chopin, Schumann e Liszt. Entre as suas composições contam-se obras para piano, orquestra, câmara e vocal. Compôs também para cinema. Foi pianista, violinista e professora de composição.








«Exposed on the Cliffs of the heart»

«Exposed on the cliffs of the heart» reúne composições para piano solo, uma das quais tocada a 4 mãos. Compostas entres 1990 e 1998, e inspiradas em diferentes temas (à excepção, creio, da Tocata), formam um álbum perfeito, repleto de beleza obscura, emocionalmente profundo.






terça-feira, 15 de dezembro de 2015

"Garage" -  Lenny Abrahamson (2007)






A grande solidão e fragilidade humana, numa interpretação memorável do ator (que se estreou neste filme) Pat Shortt.




Filme completo:

https://www.youtube.com/watch?v=1vc-9LVVjUs



terça-feira, 24 de novembro de 2015

Carlos Eurico da Costa -  "Cadernos 3" (Edição Fundação Cupertino De Miranda, 2004)






"Cadernos 3" é uma antologia organizada pela Fundação Cupertino De Miranda (sob a direção de Perfecto E. Quadrado) no âmbito da iniciativa Cadernos do Centro de Estudos do Surrealismo. Para além dos textos de grande força poética estão também presentes alguns fascinantes desenhos feitos pelo próprio Carlos Eurico da Costa (1928-1998).


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Basta de reabilitações.
Conheço as leis mais severas que são da nossa inata maldição:
a praga dos ventos rondando os corpos
os sorrisos da festa mortal vivida no ar
olhos libertando outra força e outro flanco
uma árvore branca e a última casa do mundo.
Possuamos, amigos, uma flor na manhã
a argila da morte
tenhamos uma farta corda de espectros envolvendo-nos o corpo.
Nós, que procuramos onde vive a sombra
e irresolutos descobrimos a fúria
nós, que temos ainda uma palavra para a definitiva verdade
entre armaduras de oiro e silêncio da água
entre corpos adormecidos que na noite vão crescendo
e na berma das estradas aguardam salvação
crescidos para os limbos mais impuros da terra

teremos a própria existência a vida que merecemos
a moderna altura que nos asfixia.





Lisboa, 10 de Maio, 1952

terça-feira, 10 de novembro de 2015

The Prophecy - "Echoes"


"Echoes" é uma composição da banda inglesa The Prophecy. Pertence ao álbum «Into the Light» (2009).








Tão cheia de vozes
que se anulam
esta morada,

esta chegada
ao termo da viagem,
esta partida

para a noite-margem.
Tão fina esta lâmina
que fundo fere

a água, a líquida paisagem.
Tão esquecida
esta face, este rio,

a corrente que nos empurra,
a treva
que nos impele.



LUÍS QUINTAIS, do poema "Canção", livro «Umbria»










sábado, 17 de outubro de 2015

"Lourdes" - Jessica Hausner (2009)






Retrato mordaz de um dos lugares mais icónicos do cristianismo (catolicismo). Religião na sua crueldade e hipocrisia.

terça-feira, 6 de outubro de 2015



Entrar e levar com as portas automáticas no corpo
Contar as rotações
Desenhar gráficos com setas
Esperar a empilhadora passar
Ser especializado
Parar não é competitivo
Proteger o corpo
Analisar dados
Pedir um favor
Entrar no andaime
Lamentar as máquinas que precisam de parar
Meter uma moeda e carregar no botão
Indicar risco de acidente
Traçar metas
Perseguir eficiência
Olear o metal
Pesar
Gastar o salário
Um inseto acelera assim que deixa de ficar entre alguma coisa e a parede
Celebrar contrato com termo
Reparar e o funcionamento continua
Mesas sem área livre
Arrastar peças
Trabalhar pelo prémio
Apertar as mercadorias por forma a caberem todas no mesmo caixote
Acionar travões
Mãos suadas a segurarem matéria-prima




Miguelsalgado, «O voo Mágico»

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Um excerto da primeira parte do livro  «O Voo Mágico»:


(...)
Ponto alto para ver o que está em baixo
Faltou comprar uma coisa
Proibido excepto aos moradores
Ficar um bocado em frente à campa
Tempero para polvos pequenos
Mês com o salário no dobro
Beber 1 litro e meio de água por dia
Download quase completo
Meteu detergente
Pai Natal sem barriga a distribuir rebuçados de fruta
Visitar o vizinho
A volta no carrossel dura pouco para as crianças
É para fazer dia sim, dia não
Manter o frio num aparelho quente à superfície
Trincou a própria língua
Colecionar miniaturas
Pessoas correm com garrafas de água atrás dos ciclistas
Somar na cabeça
O arrumador quer moedas ou risca a chapa
Andar na zona verde
Ao fim-de-semana supermercado
Emagrecimento para o verão
O cão preso
Estendeu o mesmo tapete duas vezes num dia
Vê-se um bocado das nádegas
Falar sem pensar
Moeda única no chapéu virado ao contrário
O bolo foi todo
A roupa a secar foi estendida cedo e se tiver sol talvez esteja seca à tarde
Passa a mão na cabeça do filho
Cheiro que abre o apetite
Marcha lenta com um cadáver metido num caixão na parte de trás de uma carrinha preta
Voo low-cost
Massagem no corpo
Rio roxo
Estão no Shopping
Bolor no queijo
Meter o termómetro debaixo do braço e esperar 5 minutos
Tiram a casca às castanhas
Fica-se um bocado em frente a espécies atrás das grades
Entroncamento
Levou a mão à parede para não cair
Depois varrer a cozinha
Jogam ao esconde-esconde e escondem-se atrás dos carros mal estacionados
Mercados bolsistas bear
Alimenta-se a fogueira
Meia quase a romper
Recordar o sonho de ontem
Duas mãos a baterem uma na outra fazem palmas
Uma mulher limpa a entrada do prédio
Os vizinhos entram com passada larga e alguns pedem desculpa pois vão sujar.



Miguelsalgado, «O voo Mágico»

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Tristitia - "Garden of Darkness" (2002)





1 The Entrance (2:08)
2 Path I: Beholder's Tears (6:20)
3 Path II: Black Godz Serenade - Part I (1:35)
4 Path III: As Death Says Mine (13:13)
5 Path IV: When Tears Cry (11:58)
6 Path V: Beyond The 7th Valley (1:44)
7 Path VI: There Will Never Be Another Dawn (10:20)
8 Path VII: Black Godz Serenade - Part II  (1:57)
9 Path VIII: Tears Of The Moon (9:07)




A banda

Os Tristitia são uma banda sueca fundada em 1992 pelo guitarrista Luís Galvez. Em 1993 lançam a primeira demo e dois anos depois o álbum "One with darkness". A última gravação data de 2002 (este aqui referido "Garden of Darkness"). Gravaram 4 álbuns.



«Garden of Darkness»

Um morto vem visitar-te. Do coração corre-lhe o sangue que ele próprio verteu, e no sobrolho negro aninha-se um instante indizível. Encontro lúgubre. Tu – uma lua de púrpura, quando o outro aparece na sombra verde da oliveira. Segue-o a noite eterna.



GEORG TRACKL, Outono Transfigurado (tradução de João Barrento)










quarta-feira, 15 de julho de 2015

Miguelsalgado - "O Voo Mágico" (Poesia Fã Clube, 2015)





VOO MÁGICO 

Arrebatamento paranormal ou sobrenatural de um homem. Estritamente falando, o voo mágico consiste no facto de um homem, que se crê dotado de poderes mágicos, se lançar de uma grande altura no ar e, geralmente… despenhar-se no solo.
“Citianus (…) tinha um discípulo chamado Terebintus, (o qual) declarou chamar-se Buda, ter nascido de uma virgem e ter sido alimentado nas montanhas pelos anjos. (…) Uma manhã, tendo subido ao terraço, tentou voar mas despenhou-se no solo” (texto citado por H.-Ch. Puech, Le Manichéisme, 1949, p.23).



PIERRE RIFFARD, Dicionário do esoterismo



 





sábado, 4 de julho de 2015

Gottfried Benn - "Homem e mulher passam pelo pavilhão dos cancerosos"





Embora não seja propriamente um desconhecido (mas também muito longe da popularidade, pelo menos por paragens nacionais), lembrei-me de colocar aqui um dos textos mais extraordinários que conheço. Gottfried Benn (1886-1956) escreveu-o para uma das suas primeiras obras: "Morgue e outros poemas" de 1912.


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Homem e mulher passam pelo pavilhão dos cancerosos



O homem:
Nesta fila aqui estão ventres apodrecidos
e nesta está o peito apodrecido.
Lado a lado camas malcheirosas. As enfermeiras revezam-se a cada hora.

Vem, levanta sem medo esta coberta.
Vê, esse monte de gordura e sumos putrefatos
para um homem um dia já foi tudo,
também foi êxtase, lar.

Vem, olha esta cicatriz no peito.
Sentes o rosário de pontos moles?
Toca, sem medo. A carne é mole e não dói.

Esta aqui sangra como se de trinta corpos.
Ninguém tem tanto sangue.
Desta aqui ainda tiraram
um filho do ventre canceroso.

Deixa-se que durmam. Dia e noite. - Aos novos
diz-se: aqui o sono cura. - Só aos domingos
para as visitas podem estar mais despertos.

Já se come pouco. As costas
são feridas. Vês as moscas. Às vezes
a enfermeira lava. Como se lavam bancos.

Aqui o solo já incha em torno de cada leito.
Carne nivela-se à terra. Brasa vai-se embora.
Sumo começa a correr. Terra chama.





GOTTFRIED BENN (Tradução de Cláudia Cavalcanti)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

"Äta Sova Dö" ("Comer Dormir Morrer") - Gabriela Pichler (2012)





O peso que um emprego tem naquilo que somos e o quão dramático e absurdo isso pode ser. Filme de estreia da realizadora sueca Gabriela Pichler.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Leadlight Rose - "Sweet Obsession" (2012)






1 Follow (6:33)
2 The Dance (4:44)
3 Peasant Song (4:40)
4 All Knowing Eyes (5:27)
5 Your Ghost (6:14)
6 My Exit Call (3:48)
7 Highlander (4:05)
8 Symphony (3:46)
9 For You (4:46)
10 Sanctuary         (12:02)




A banda

Os Leadlight Rose são uma banda australiana formada em 2007 pela colaboração da vocalista Ellah Rose e do baterista Geoff Irish.
«Sweet Obsession» é o primeiro álbum e provavelmente o último, uma vez que a vocalista e fundadora da banda  anunciou o término do projeto pouco tempo depois da sua edição.




«Sweet Obsession»

brutalmente a tempestade atirou meu corpo contra o teu, criámos o relâmpago e o cheiro a enxofre, sem o sabermos. uma mosca pousou nos olhos, cegando-me num instante. serás tu a minha cegueira? só nela te encontro e amo. manhã de ausências, dúvidas, receio de não amanhecer contigo, nunca mais. teu rosto resplandece de luz enquanto eu adormeço, ou morro, tanto faz. /



AL BERTO, À procura do vento num jardim d`agosto









quarta-feira, 29 de abril de 2015

Process of guilt - "Motionless", "Becoming Light", "Corrosion" e "Waves"


"Motionless", "Becoming Light", "Corrosion" e "Waves": 4 composições dos nacionais Process of Guilt. As duas primeiras fazem parte do álbum «Renounce» (2006) e as duas últimas  do álbum «Erosion»(2009).











"Foi bem dito acerca de um certo livro alemão que “es lasst sich nicht lesen” – ele não consente ser lido. Existem alguns segredos que não consentem ser contados. Morrem homens durante a noite nas suas camas, apertando as mãos de confessores fantasmagóricos, fitando-os piedosamente nos olhos – morrem de coração desesperado e garganta convulsa, à conta da repugnância dos mistérios que não se sacrificam à revelação. Aqui e ali, infelizmente, a consciência do homem carrega um fardo de horror tão pesado que apenas na cova poderá ser despejado."


EDGAR ALLAN POE, O homem da multidão (tradução de Vasco Gato)






quarta-feira, 8 de abril de 2015

"Soldier of God" ("Soldado de Deus") -  W.D. Hogan (2005)






«Na terra da encarnação apareceu uma nova cavalaria. É nova e ainda inexperiente no mundo, onde trava um combate duplo, ora com adversários de carne e sangue, ora contra o espírito do mal nos corações… o cavaleiro verdadeiramente não tem medo e não é censurado, protegendo a sua alma com a armadura da fé, do mesmo modo como cobre o corpo com uma cota de malha. Duplamente armado, não tem medo nem dos demónios nem dos homens. É certo que aquele que deseja morrer não tem medo da morte. E como temeria morrer ou viver aquele para quem a vida é o Cristo, e a morte a recompensa?
«… Cavaleiros, ide satisfeitos, ide tranquilos, repeli com intrepidez os inimigos da cruz de Cristo, certos de que nem a vida nem a morte nos poderão excluir do amor de Deus que está em Jesus Cristo: felizes e gloriosos aqueles que voltam vencedores, mais felizes ainda aqueles que são mortos no combate!…»



BERNARDO DE CLAIRVAUX, De Laude Militae (retirado do livro «Os Grande Julgamentos Da História - Templários»)

 

sábado, 21 de março de 2015

Miloslav Kabeláč - "Mystery of Time" Op. 31 (1953–57)





O compositor

Miloslav Kabeláč (1908-1979) é um compositor e maestro nascido em Praga, atual República Checa. Ingressou no Conservatório da mesma cidade em 1928 e compôs em praticamente todos os géneros, excepto ópera. Devido aso seus ideais democráticos e humanistas a sua obra foi afastada pelos regimes totalitários que controlavam o país.



"Mystery of time" Op. 31



Agora
para ele
o tempo não tem
mais sentido

e só a morte
fidelíssima
continua à sua espera



LUÍS SERRANO, Nas colinas do esquecimento









quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Crysalys - "Angelica", "When sirens sing", "Lilium" e "...and let the innocent dream"


Os titulos acima são 4 composições da banda italiana Cryalys. Fazem parte do álbum «The Awakening of Gaia» (2011)







“Mas, direis vós: a borboleta, essa flor que voa?...Imagino uma do tamanho de cem universos, com asas de que não posso sequer exprimir a forma, a beleza, a cor e o movimento. Mas vejo-a... Volita de estrela em estrela, refrescando-as e perfumando-as com o hálito harmonioso do seu voejar... E os povos lá de cima vêem-nas passar, extasiados e felizes!...”



GUY DE MAUPASSANT, O Horlá (tradução de Jorge Reis)












quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Edward Bond - "Coros para depois dos assassinatos" (Quasi Edições, 2002)






"Coros para depois dos assassinatos", do escritor inglês Edward Bond, foi publicado pela primeira vez em 1983 sob o nome "Choruses from After the Assassinations".

Posteriormente, o autor escreveu:

“Depois dos Assassinatos é o título de uma peça. Eu decidi publicar apenas estes coros. Originalmente, eram discursos das personagens da peça. Chamei-lhes coros na esperança que encorajasse uma atitude de reflexão.”

E.B.

Dezembro 1997

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Amor


As pessoas casam por amor
Depois passam uma vida de escravidão para pagar a cama
Acabam zangados e estúpidos com ódio do mundo
Eles têm filhos para amar
Depois amaldiçoam-nos e alguns deles partem os braços
O jogador dá as suas últimas libras a uma rapariga num beco e depois pontapeia-a insensivelmente para as recuperar
O amor levou-os para o beco
Não digam que o amor é mais puro do que aquilo
Os Generais têm misseis porque nos amam
Quando fritarmos eles vão chorar por nós nos seus bunkers
Vocês aguentam em qualquer cabana desde que lá dentro haja amor
Desde que consigam dizer “amor torna-nos humanos” não precisam de se preocupar em agir como humanos e limpar a confusão
Vocês patinham na vossa pilha de estrume e apelidam-se de santos
Se um Deus fez o mundo pôs amor nesse mundo para que não conseguíssemos torná-lo melhor e mostrar que não precisamos de Deuses
Bom se Deus fez o mundo espero que tenha lavado as mãos logo a seguir
Aonde começou a loucura?
Houve uma era de milagres
Apareciam constantemente notícias de milagres
O mar dividiu-se e um exército atravessou-o!
Os cegos conseguiam ver e saltaram sobre os seus paus!
Mortos apareceram de repente como fugitivos!
Cinco mil desempregados numa praça?
Está bem – alimentem-nos com este pequeno cesto de pão e peixe
Tempestade no mar? Não construam um bote salva-vidas – deixem-nos caminhar!
Maus vizinhos a pedirem constantemente o vosso cortador de relva?
Ofereçam-lhes o cortador de relva!
Agora eles enegrecem o vosso olho porque não lhes cortaram a relva?
Dêem a outra face!
Outro milagre? – por que não?

A era dos milagres está morta e será preciso mais do que um milagre para a trazer de volta
É por isso que os homens saíram nus para a charneca para gritar à tempestade
Agora os mísseis estão na charneca




EDWARD BOND, Coros para depois dos assassinatos (tradução de Luís Mestre)


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Forest of Shadows - "Departure" (2004)






1. Sleeping Death (16:57)
2. November Dream (10:44)
3. Bleak Dormition (05:20)
4. Open Wound (13:55)
5. Departure (14:19)





"As estrelas, no negro céu, começaram a surgir e cintilavam sobre um mar de tons de tinta preta que, pintalgado de espuma, lhes devolvia o brilho da luz pálida e evanescente de uma brancura estonteante nascida da tormenta negra das ondas. Remotas, na sua tranquilidade eterna, cintilavam, fortes e frias, acima do tumulto da terra; rodeavam o vencido e atormentado barco; mais impiedosas do que os olhos de uma multidão triunfante, e tão inacessíveis quanto os corações dos homens."                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           
JOSEPH CONRAD, O Negro do Narciso (tradução de Luzia Maria Martins)










quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

"Summer" - Kenneth Glenaan (2008)






Um ramo de glicínias
pesa demasiado
na mão enferma


TAKAKO ( do livro «O Crisântemo Branco» - Antologia de Haiku. Seleção de Adelino Ínsua)








quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Runemagick - "On Funeral Wings" (2004)





1- Monolithic Death – 4:19
2- Rise of the Second Moon – 3:30
3- On Funeral Wings – 4:36
4- Dragon of Doom – 9:31
5- Hyperion – 0:49
6- Ocean Demon – 6:52
7- Emperor of the Underworld – 5:35
8- Trifid Nebula – 2:00
9- The Doomsday Scythe – 8:19
10- Riders of Endtime – 5:38
11- In a Darkened Tomb – 8:22
12- Black Star Abyss – 8:31
13- Wizard with the Magick Runes – 5:47




[…] Mansão das Trevas,
A morada de Irkalla,
A casa de onde ninguém volta depois de lá ter entrado,
Na estrada de onde não há regresso,
A casa onde os moradores estão privados de luz,
Onde o pó é o preço da passagem, e a argila a sua alimentação
Todos estão vestidos como se fossem aves,
Com asas por único vestuário.
E não vêem a luz, residindo nas trevas.


Excerto da Epopeia de Gilgamesh










   

sábado, 8 de novembro de 2014

Persephone - "Our Dream" e "Lullaby"


"Our Dream" e "Lullaby": duas composições da banda austro-alemã Persephone. Pertencem ao álbum «Atma Gyan» (2004).





A banda

Os Persephone surgem no ano 2000 através da colaboração de Sonja Kraushofer e do produtor Tobias Hahn, igualmente produtor da banda L'âme Immortelle, o anterior projeto da vocalista Sonja Kraushofer.
Vários músicos juntam-se posteriormente aos Persephone, com especial destaque para o violoncelo.
Lançaram 4 álbuns, o último dos quais em 2007.



"Our Dream" e "Lullaby"

"Acordo na desolação da casa desabitada.
Choveu. Choveu todo o dia sobre a cidade.
Digo:
– Esta chuva limpa a morte dos dias.
Tudo o que nos rodeou – e me rodeia – foi-se tornando negro. Apenas uma constelação de ínfimos pontos luminosos nos dirá que, uma vez, estivemos aqui.
No branco rugoso das paredes desenho um aro, assinalo a nossa passagem.
E no brilho da pele pouso a ponta dos dedos – despeço-me de um rosto pelo qual arrisquei a vida e, por vezes, a razão."

 

AL BERTO, O anjo mudo





 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

"Yella" - Christian Petzold (2007)






A margem de cá é a dor. A margem de lá a morte. Yella é uma mulher que se move nessas margens.





Trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=S7iZUwm7tVQ

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Pantheist - "Don`t Mourn"


"Don`t Mourn" é uma composição da banda britânica Pantheist. Faz parte do álbum "O Solitude", de 2003.






A banda:

O projeto toma forma por volta de 2000, através da colaboração entre o vocalista (e principal compositor) Kostas Panagiotou e o guitarrista Nicolas Tambuyser. Em 2003 lançam o primeiro álbum (do qual faz parte a composição aqui mencionada). Depois, mais três álbuns, o último dos quais em 2011.



"Don`t Mourn":

Quando considero a duração mínima da minha vida, absorvida pela eternidade precedente e seguinte, o espaço diminuto que ocupo, e mesmo o que vejo, abismado na infinita imensidade dos espaços que ignoro e me ignoram, assusto-me e assombro-me de me ver aqui e não lá. Quem em pôs aqui? Por ordem de quem me foram destinados este lugar e este espaço?


BLAISE PASCAL, Pensamentos





quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Atrox - "Terrestrials" (2002)




  1. Lay (3:20) 
  2. Ruin (7:18)
  3. Mare's Nest (6:05) 
  4. Nine Wishes (6:02)
  5. Human Inventions (5:37) 
  6. Mental Nomads (7:25)
  7. Changeling (8:39)
  8. The Beldam Of The Bedlam (8:40)
  9. Translunaria (7:47)
  10. Look Further(8:45)



A banda


Os Atrox são uma banda de origem norueguesa. Lançaram o primeiro álbum em 1997 e o último em 2008, num total de 5 álbuns gravados. Durante esse período atravessaram diferentes formações, com vários músicos a entrar e a sair, sendo, a meu ver, a perda mais notada a da carismática Monika Edvardsen, que abandonou a banda após o álbum de 2003 "Orgasm".



"Terrestrials"


"Enterram os seus mortos com a cabeça para baixo, pois acreditam que um dia, passadas onze mil luas, todos ressuscitarão e, como, até lá, o mundo, que supõem achatado, terá dado uma volta, estarão assim em pé e preparados para o acontecimento. Os mais cultos confessam o absurdo de tal doutrina, mas a prática mantém-se, em condescendência pelo povo."


JONATHAN SWIFT, As Viagens de Gulliver (tradução de Maria Francisca de Lima)









segunda-feira, 25 de agosto de 2014

António Ferra – “A Palavra Passe” (Campo das Letras, 2006)



 
 
 
 
Esta Palavra Passe abre olhos.
 
 
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Iraque e os cafés da tarde
 
 

O ruído dos cafés é um clássico da literatura de cidade,
sem evocações da natureza, do verde das frondosas árvores,
dos campos ao pôr-do-sol, do murmurar da água do ribeiro,
sem uma ave assinalando a mudança dos ventos.

Aqui, apenas se ouve cair a água no copo
«com ou sem gás?»,
talvez água das pedras ainda a lembrar
a natureza da alma empedrada neste café
onde eu agora estou, sorvendo instantes
na luz coada pelo ruído das vozes e das colheres
tilintando a tarde sobre o fotojornalismo,
preenchendo páginas volantes.

Também se bebe o espaço coberto da espuma da luz,
o espaço da sonoridade onde se tomem as paragens do tempo,
coffe break, dizem, enquanto as bombas rebentam no Iraque,
mas também os olhares, o enigma dos outros, mais
as secretas tranquilidades, as melancolias,
as raivas projectadas naqueles ali, nas mesas em redor,
e nenhuma granada deflagra a perturbar a sonolência dos jornais.

Num café como este, se chover lá fora ainda melhor,
distingue-se a zona de mesas de mármore à vista
das mesas com toalha à hora do lanche,
sem que neste deserto imenso passe um tanque
à espera da luta ou à espera de alguém que desista.

Sobraram ainda algumas mesas negras
nesta Lisboa de pastelaria,
onde, pelas cinco ou seis horas, surgem os garotos,
as meias de leite e as torradas,
um cheiro a manteiga quente derretida
pela tarde a meio, enquanto alguém corria
pelas ruas de Bagdade, três horas avançadas
sobre o tempo do meridiano de Greenwich,
Lisboa incluída, menos uma hora nas Lages dos Açores
nesta altura do ano, menos três horas em Nova Iorque
onde coffe se derrama sobre restos de flores.

E lá longe, uma mulher morre distraída
sem água e sem luz que lhe explique o mundo,
sem um galão morno, como este, a lembrar
um soldado americano de binóculos incolores
que não nos vê, nem sequer adivinha no radar
a chávena minúscula com sinais de açúcar
esquecido em fundo negro.



ANTÓNIO FERRA, A Palavra Passe
 
 
 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

White Skull - "Gods of the Sea" e "The Terrible Slaughter"


"Gods of the sea" e "The Terrible Slaughter": duas composições da banda italiana White Skull. Pertencem ao álbum "Tales from the North" (1999). "Gods of the Sea" conta com a participação do vocalista Chris Boltendahl.







"A noite, no exterior, gemia e soluçava com um acompanhamento de um tremor contínuo e barulhento, como se estivessem a bater, num ponto distante, em inumeráveis tambores. Gritos agudos cortavam o ar, safanões tremendos e surdos faziam tremer o barco enquanto ele balançava sob o peso das ondas que o varriam de lado a lado. Por vezes, erguia-se rapidamente como se fosse deixar este mundo para sempre; depois, durante momentos intermináveis, caía um vazio, com todos os corações da tripulação parados, até que um choque horrendo, esperado e súbito, punha os corações a bater novamente com um enorme baque."

 
JOSEPH CONRAD, O Negro do Narciso (Tradução de Luzia Maria Martins)